"nossa imaginação ganha asas quanto mais balançada for"

             Meu mais novo amigo é um cara que me inspira e que com suas estórias aprendo muito sobre o que já ouvi mas nunca vi, coisas que já reparei mas nunca me deparei de fato. Entre o ver com os próprios olhos e sentir com o coração, o admiro muito por perceber nele inúmeras potências que gostaria de melhorar em mim mesmo. Nós nos conhecemos na Jornada 2017, e hoje fazemos parte do time de Storytellers e sonhadores que compõem a comunidade co•mo•ver.

            É uma amizade nova e promissora e apesar da pouca e recente convivência que tivemos nesse momento de nossas jornadas, percebo nitidamente a velocidade de evolução no seu processo de transformação pessoal através da contação de estórias como uma peça chave desta imersão para o autoconhecimento. Sua insaciável sede de aprendizado e determinação lhe trazem um ar mais jovial e embora ambos tenhamos exatamente a mesma idade, perto de mim ele parece bem mais novo e muitas vezes o vejo como uma criança aventureira cheia de energia e responsabilidade.

            No final de semana que passou eu me convidei para somar no passeio que ele havia esquematizado junto a sua grande parceira de aventuras Érikinha e seu casal de amigos da paz Chammas e Téia. Como eu não tinha feito planos e havia um lugar sobrando no carro, pensei que esta oportunidade cairia como uma luva, ou melhor, como um cilindro de oxigênio para que eu pudesse respirar melhor estes novos ares que vem se apresentando em minha trajetória bastante turbulenta atualmente.

André, Téia, Chammas e Erikinha

            Durante esse nosso processo de autoconhecimento facilitado pela contação de estórias, nos deparamos com um tema bastante revelador a respeito de formas alternativas de aprendizado, a Desescolarização. Procurando entender melhor sobre o que seria uma educação livre e viva, encontramos uma pessoa muito especial que protagoniza e compartilha este processo em sua própria casa em forma de vivências abertas. A ex-bailarina, educadora e mãe três filhos desescolarizados, Ana Thomaz, abria as portas de seu sítio em Piracaia no interior de São Paulo para um fim de semana de inspiração, experimentação e arte com muitas risadas. Ana é apaixonada por educação e com sua grande vontade de trocar e de aprender ensinando, ela fez de uma das propriedades de seu pai um espaço de comunicação, compartilhamento, criação, encontros e conexões que ampliam as relações humanas. Abrindo a porteira deste espaço nomeado Amalaya para pessoas curiosas, interessadas e questionadoras deste processo todo, André e eu nos sentimos chamados a visitar este lugar mágico.

            Teatro em Amalaya - "O dia da Caça" com Las Cabaças foi o título deste convite, e com toda essa energia, curiosidade e oportunidade em forma de aventura,  natureza e diversão, saímos rumo a este destino. Eu adoro teatro, ainda mais quando a peça é para todas as idades, e quando descobri que "O dia da Caça" seria uma apresentação protagonizada por uma dupla de palhaças escrevi para Ana reservando meu lugar na plateia. Interpretadas pelas atrizes Juliana Balsalobre e Marina Quingan da dupla Las Cabaças, as caçadoras Bifi e Quinan, famintas há 3 dias, passam uma noite na floresta seguindo rastros de bichos e procurando comida até que um misterioso e temido animal as enfeitiça mudando o curso da história.

            Ao chegarmos, fomos muito bem acolhidos por Ana com um sorriso e um abraço de boas vindas, mas sem se estender muito nas apresentações pessoais pois o espetáculo estava prestes a começar. Sentamos em tocos de madeira na plateia em formato de ferradura envolvendo o gramado que servia de palco bem no meio do vale das terras Amalaya. As quase trinta pessoas que ocupavam a posição de respeitável público eram metade compostas por crianças e metade por adultos esquisitamente tranquilos. Nós jovens-adultos éramos minoria. O dia estava lindo, o clima bastante agradável e com o sol descendo lateralmente, Gutto - o filho mais velho de Ana, carinhosamente apelidado por André de "Gutto onde tudo começou" - comandando a sonoplastia soltava a trilha de abertura anunciando a entrada de Bifi e Quinan em cena, dando assim início a sequência de gargalhadas e lágrimas de felicidade provocadas pela fantástica palhaçada perfeitamente ensaiada, sintonizada e entoada pela dupla. Olhei para o lado e vi André tirando os sapatos no momento em que abandonei meu toco, sentei na grama junto as crianças e rapidamente estávamos muito à vontade ali. Durante toda a peça eu dividia minha atenção entre a história da caça e a movimentação das crianças que repetiam e completavam as falas das palhaças marcadas por termos nortenhos e regionais que eu nunca havia escutado, mas que compreendi perfeitamente como esse tal de pitiú agradável que envolvia meus sentidos.

            A peça chegou ao fim e depois de longos aplausos de pé, todos se olhavam satisfeitos e sorridentes como se já se conhecessem antes. Algumas famílias iriam embora antes mesmo do pôr do sol e outras ficariam até mais tarde para o jantar. A interpretação de uma caçada tão divertida havia nos deixado famintos. Como havíamos chegado bem na hora do teatro não tivemos tempo de descarregar nossas coisas e agora era o momento de abaixarmos nosso acampamento. Do alto do vale, André e eu olhávamos a natureza ao nosso redor nos perguntando onde montaríamos nossas barracas. André até chegou a pensar que a escolha seria livre como a educação, quando Ana apareceu na hora certa e disse que o camping era lá em baixo perto do estacionamento, um pouco distante da cozinha e dos banheiros. Eu bem que imaginei que seria lá mesmo, pois era uma das poucas áreas planas em meio aos vales das terras Amalaya. André, Érikinha, Chammas, Téia e eu fomos até o carro pegar nossas coisas para levar até o camping, mas antes mesmo de montarmos tudo, nossos estômagos roncaram simultaneamente como uma orquestra e nós mal acostumados com o fácil acesso a enorme variedade de comidas prontas na cidade grande paramos no estacionamento para dividirmos os snacks da viagem. Rapidamente devoramos os pacotes de mixed-nuts, chips de banana, ervilha com wasabi e maçã desidratada que o casal aventureiro André e Érikinha haviam levado para compartilhar sem nem fazermos ideia do jantar incrível que estava por vir.


            Anoitecia lentamente a medida que terminávamos de nos arrumar para o jantar. As crianças viviam soltas, longe dos adultos, correndo livremente pelas colinas e brincando principalmente de esconde-esconde ritmado ao esconder do sol. Estava ficando frio e ao chegarmos na cozinha um cheiro maravilhosamente doce dominava o ambiente. Descobri que o perfume vinha do chá e ao provar deste néctar de sabor igualmente maravilhoso fiquei imaginando qual seria sua fórmula. Hibisco, mel, canela, cidreira... Foi quando perguntei para Fabio que de prontidão me respondeu ser um chá de amor e carinho. Enquanto todos os adultos não apareciam na cozinha também fomos ser crianças brincando de slackline e no balanço enorme que havia ali. A sensação de tempo neste lugar é mesmo muito relativa, onde a molecada aparenta ser responsável o suficiente para cuidarem uns dos outros e os adultos despreocupados, leves e contentes como as crianças. Não é a toa que os balanços de Amalaya são tão altos e de cordas tão compridas assim como o teatro de Las Cabaças é um espetáculo para todas as idades. Nossa imaginação ganha asas quanto mais balançada for.

            Fomos convidados para entrar e sentamos em roda para degustar um vinho enquanto a entrada era servida. Ana fez questão de esperar que todos estivéssemos reunidos para nos servir fazendo nossos pratos com a melhor sopa de tomate que eu já tomei na vida. Os temperos amor, carinho, tomilho, manjericão e sálvia incrementavam os tomates pelados dissolvidos na sopa com cebolas que desmanchavam na boca. No mesmo prato uma fatia generosa de pão e uma colherada de coalhada caseira inauguravam o tão esperado jantar.

            Marcelo adentrou nossa roda curioso para saber quem éramos e como havíamos chegado ali. Naturalmente devolvemos-lhe a pergunta e ele nos contou que após sua trajetória dolorida e desgastante em mais de dez anos como funcionário internacional da área de sustentabilidade de um banco o levaram a trocar o peso e amargor do mundo corporativo pela doce leveza do encaixe da cabeça no próprio corpo proporcionado pelas técnicas milagrosas aprendidas com Ana. Em seguida enquanto o prato principal ficava pronto, Ana voltou a questionar o que nos trouxe até Amalaya. Ingênua e publicitariamente eu respondi sua pergunta com o próprio slogan que ilustrava sua página na internet dizendo estar ali para ver com meus próprios olhos esse lugar onde milagres aconteciam. Ela riu e olhando para Marcelo disse sorrindo que o slogan estava desatualizado e que seu o novo lema para Amalaya seria "onde os paradigmas mudam e o idealismo é destruído". André não estava na roda nesse momento pois havia ido buscar mais um agasalho no camping enquanto eu contava desta nossa experiência interpessoal e profissional mentorada pelo Mau, sendo ele o principal elo entre nós e a própria Ana. Comentava que a inovação social e o desenvolvimento humano são pilares fortes para a concretização desta experiência e logo fui surpreendido por Marcelo mais uma vez ao contar que minha motivação também estava em ajudar ao próximo. Ele puxou meu tapete mágico ao revelar que a gente só ajuda ao próximo de fato ajudando a nós mesmos primeiro.

            Ana se levantou da roda e voltou a nos servir com o prato principal. Um risoto de funghi com gorgonzola e salada de rúculas fresquinhas silenciaram-me até meu prato ficar limpo outra vez. Sentia minha alma sendo nutrida de verdade da mesma forma que percebi o prazer de todos trocando aprendizados na sala de jantar. Estávamos cada vez mais enturmados nesta sala que era acoplada a cozinha construída dentro de um container. Não sei exatamente se era o frescor dos alimentos somados ao amor das pessoas ali presentes mas sentia que os milagres aconteciam sim, pelo menos durante este jantar neste chalé meio de vidro meio de madeira, meio sala meio cozinha.

            Estavam todos ali presentes mas eu e André sentíamos falta de uma das palhaças. Mesmo sem a magia presente na maquiagem foi fácil identificar que Bife era Juliana. Mas Quinan estava tão diferente sem seu chapéu de cabaça, pankake branco, batom vermelho e sem o figurino de retalhos que só descobrimos que ela era Marina quando a sobremesa chegou. Um appfelstrudel brilhante e iluminado com iogurte caseiro maravilhoso sob um céu estrelado saborosíssimo, fechavam o menu. Ao sair da cozinha Fabio deixava o posto de chefe discretamente quando veio se juntar a nós na sala, mas de imediato foi percebido e recebido com uma salva de palmas. Todos aplaudiram muito, batendo palmas para quem plantou, palmas para quem colheu, palmas para quem preparou, palmas para quem cozinhou e também palmas para quem comeu.

            Bem alimentados e felizes partimos para o lado de fora da sala onde a roda de conversas num movimento improvisado virava roda de violão sob as estrelas. Chammas chamou no violão entoando brasilidades enquanto Christian sem perder tempo se juntou espontaneamente para somar no segundo violão e ainda nos presentear com canções na manga de seu blusão azul índigo. Mas antes disso conversando um pouco com Marina descobri que estamos sempre ensaiando a vida para que no momento certo possamos brilhar linda e seguramente como um palhaço ao se alimentar das gargalhadas de seu público. O palhaço é mesmo uma figura tão expressiva que as vezes até assusta de tão caricato. Curiosamente perguntei a ela quem ou o que faz o palhaço rir e ela respondeu rindo de mim que o próprio ser humano é hilário por natureza. Nem vimos o tempo passar quando a galera se despedia da roda com um boa noite sincero. Apagando as luzes da cozinha Ana veio lembrar que não existe relógio em Amalaya e que não precisávamos ter pressa para dormir, muito menos para acordar. Ao se despedir, o marido de Ana, ator e também chefe de nosso banquete, Fabio deu mais uma palhinha de seu lado artístico quando acendeu uma vela protegendo-a do vento por uma garrafa pet cortada em sua base. Neste momento todos já haviam se recolhido e depois desse extenso repertório de iguarias requintadas fomos descansar.

            Minha noite na barraca foi bem gelada mas acordei me sentindo muito bem. Havia sonhado com um jogo de futebol em que eu fazia um gol atrás do outro, talvez porque o camping quando vazio ganhava lugar de campinho abrigando duas pequenas traves de cano PVC que Ana ganhou de presente de seus amigos visitantes. Levantei acampamento e fui procurar a galera. Ao chegar na sala-cozinha, as palhaças estavam sendo entrevistadas por Ana e Fabio, ao mesmo tempo que Marcelo e Christian registravam tudo operando duas câmeras. Percebi que eu havia sido um dos últimos a acordar e como a maioria do pessoal já havia tomado café da manhã me sentei em silêncio para assistir aquela conversa tão divertida que soava como uma extensão do próprio teatro. O autoconhecimento em meio a esta abordagem narrativa em forma de contação de estórias é mesmo mágico, inspirador e imersivo tanto para quem conta, quanto para quem escuta.

 

Uma estória contada por Guilherme Bressan


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