Sou um cinquentão que já viajou muito pelo mundo, mas só agora pus o pé na África, numa intensa jornada de descoberta e transformação. Ela aconteceu ao acaso neste mês de outubro e teve início no convite de minha esposa, Camila, para eu mentorar 16 jovens empreendedores sociais durante a Red Bull Amaphiko Academy 2015 em Cape Town (Cidade do Cabo). Não teria tido essa rica experiência se não fosse pela sua insistência, reforçada pelos incentivos do nosso amigo Ian Calvert, diretor do programa na África do Sul. Então, começo aqui agradecendo aos dois pela oportunidade (e grande empurrão :).

Muizenberg, Cape Town, África do Sul

Cami e eu desembarcamos em Cape Town uma semana antes do início da academia e tivemos tempo de passar alguns dias com nossos novos amigos em Muizenberg, um vilarejo nos arredores da cidade que reúne artistas, surfistas, intelectuais, alternativos e muita riqueza cultural em um lugar só. Entre campo e praia, montanhas e reservas naturais, sol e lua que revelam espetáculos diários do amanhecer ao anoitecer, com pouco vento ou muito vento, esse lugar é mágico pela beleza nativa pra quem quiser apreciar e conviver.

Nessa terra tão distante, nos entregamos aos desconhecidos e conhecemos "gente como a gente”, das quais já sinto saudades. Theresa Wigley, obrigado por nos acolher em sua casa, que nos fez sentir na nossa. Claire Homewood e Sergio Rinquist, obrigado por nos mostrarem beleza e arte. Joon, obrigado por nos nutrir com alimentos deliciosos, delicadeza e carinho. Katherine Whaling e Bruna Fogaça, obrigado por nos conectarem com esse mundo tão humano.

A África do Sul vive um processo riquíssimo de redescoberta da humanidade, no explícito sentido da palavra. A presença libertária do espírito de Nelson Mandela é sentida em todos os cantos e continua alimentando a consciência de integração do diverso em mentes e almas de brancos e negros, maioria absoluta no país.

A convivência em Langa, lugar onde mais ficamos, foi repleta de descobertas. Langa é uma “township”, espécie de favela, onde a escassez econômica é pra lá de evidente e a abundância de almas, cultura e alegria também é. Gente sentada na rua conversando sem pressa. Amigos bebendo juntos. Crianças brincando por toda parte. Céu límpido de sol ardente durante o dia. Música de passo bem marcado à noite. Sempre com vento soprando alegria.

Nunca me senti tão acolhido em um país desconhecido. Nunca me senti tão amado por gente que nunca vi. Nunca me senti tão integrado no diverso distante da minha realidade diária. Nunca me senti tão protegido em um lugar aparentemente hostil. Nunca me senti tão negro, mesmo com a minha pele branquela.

Em meio a uma riqueza humana latente, no Teatro do Centro Comunitário de Langa, montado por arquitetos em seus experimentos com material reciclável, encontramos jovens empreendedores sociais emergindo na academia montada pela Red Bull Amaphiko. Uma obra de arte em forma de imersão com 10 dias de duração, que integra jovens de todas as classes, executivos da empresa, especialistas em vários temas e artistas. Muitos locais e de todo o mundo. Da fotógrafa Martha Cooper ao b-boy Lamine. Do super-couche Andy Walshe ao ativista Shaka Sisulo. Do empreendedor Luvuyo Mandela aos artistas do grafite Monstarian e Mundano. Timasso de gente que transforma o impossível em possível. Quer ver?

Dia desses, caminhando pelas ruas de Langa, distraído pelas obras em andamento dos grafiteiros que se juntaram pra pintar as paredes com seus talentosos sprays, duas crianças soltas das suas realidades se aproximaram, se olharam, se tocaram e aí a mágica aconteceu: o impossível virou possível, retratado nessa sequência linda de imagens registradas pela Cami.

Tenho visitado frequentemente essa sequência de imagens e fatos que não saem da minha mente e agitam o meu coração. É muito difícil expressar em palavras o impacto transformador que tudo isso causou em mim. Fui um. Voltei outro. Na bagagem, memórias das experiências, aprendizados, novos amigos, minha consciência em nível muito mais inquieto e a certeza sobre o poder transformador da realidade pela juventude enquanto adultos convictos e com seus preconceitos caminham distraídos. Que continuem distraídos.

Obrigado, África! MC

P.S. Para saber mais sobre iniciativas com a Red Bull, clique aqui.