Em 2013 a empresa Telefônica realizou em toda América Latina uma série de encontros sobre o tema "A educação do Século XXI". O sociólogo Edilberto Sastre -  entrevistado na série Diálogos sobre Educação Livre - facilitou um dos debates virtuais do evento falando sobre desescolarização e educação domiciliar. Acompanhe aqui trechos desse debate.

Texto de Edilberto Sastre
Livre compilação por Yanna Seabra

O Estado, a educação e a família

Historicamente a educação começou em casa. Mesmo que possamos entender por casa uma caverna ou uma árvore, pois foram sempre os pais os primeiros a ensinar às novas gerações. Por isso digo que a mais antiga profissão não é a prostituição, mas sim a de professor.

 A família como centro da sociedade não existe mais. Instituições como o Estado e a economia vêm decretando de diversas maneiras a redução, a disfunção e a incapacidade da família. O Estado a sente incapaz de realizar suas tarefas e então lança políticas que substituem diretamente os pais no cuidado dos filhos. É mais fácil controlar indivíduos expostos às instituições desde muito cedo.

Por sua vez, o mercado entende que a família como ator consumidor é menos eficiente que indivíduos sozinhos. Ter familia será cada vez mais desestimulado na grande mídia. E a mentalidade coletiva ja assimilou a mensagem. É mais rentável vender objetos para pessoas isoladas que para grupos familiares. Assim, por exemplo, se privilegia a construção de kitnetes ao invés de moradias amplas. Se induz de diversas formas os pais a desistirem, ora de ter filhos, ora de cuidá-los. Assim, se terceirizam os cuidados dos filhos ao Estado ou às instituições privadas. 

A volta à educação em casa é sim uma retomada da centralidade da família. Trata-se de um movimento de contra-mão histórica.

Um novo paradigma para a educação

A essência do paradigma escolar atual é ter uma aparelhagem enorme preparada para intervir na criança, que é um objeto vazio que deve ser preenchido; algo vai ser ̈embutido nele ̈. Esse modelo é baseado no ensinamento centralizado no professor, no controle exercido pela instituição e em um ordenamento político pedagógico curricular. 

Já o modelo desescolarizado se concentra na aprendizagem, portanto, na ação do aprendente, em seus interesses, em sua autonomia. Mais do que organizar recursos, o importante é criar um ambiente de legitimidade diante dos interesses da criança. Mais do que disponibilizar estruturas, é preciso estar disposto a escutar e observar, de maneira a facilitar o processo do sujeito de aprendizagem, processo este que é sempre de dentro pra fora e não de fora pra dentro.

No processo de desescolarização não existe objeto, mais sujeito de aprendizagem e nessa relação com a criança só podemos ser todos sujeitos de aprendizagem. Se ele está aprendendo é porque nós também o estamos fazendo no mesmo processo.

O movimento espontâneo é mais acorde com a desescolarização do que a preparação prévia. A pergunta inocente, quase que boba, é mais pertinente que o questionário preparado com antecedência. A procura mútua é mais inteligente do que o caminho preconcebido. O não saber efetivamente onde começar, mas dar início mesmo sem saber aonde vai tudo é mais rico em possibilidades do que uma linha traçada com começo, meio e fim.

De fato, o que a escola nao enxerga é justamente que toda aprendizagem é fruto da atividade interior do aprendente.

Podemos ter toda a informação do mundo ao nosso alcance, mas ela só se transforma em conhecimento quando, dentro de nós, essa informação constrói sentido e abre possibilidades de resposta a problemas específicos que a realidade nos coloca. Assim entendo que o conhecimento é um evento íntimo, completamente subjetivo. A informação é um dado objetivo, esta só se transforma em conhecimento quando é incorporada ao sistema de construção de sentido do ser humano.

Como é que cada ser humano constitui significado, depende de como cada um equaciona através de suas emoções, sentimentos, percepções, conceitos, o que experimenta. Mesmo quando se trata de um exercício coletivo, aprender, como diria Maturana, passa pela construção de sentido. Uma comunidade aprende apenas na medida em que cada um dos atores que a configuram participa do sentido construído coletivamente. Podemos observar isso com as famílias homeschoolers que pouco a pouco entram em contato com outras e comecam a se configurar como redes de aprendizagem onde a experiência de cada uma, na medida em que faz sentido, agrega aos demais, comformando um circuito virtuoso!!!!

De fato não se trata mais de transmitir informação. Crianças não são recipientes. São significantes ativos, construtores de sentido. Sem isto, simplesmente não acontece o aprendizado. Só aprendemos o que internamente faz sentido para nós. Daí que aprender seja sempre uma atividade interna que responde à subjetividade do aprendente que se esforça por constituir sentido a partir de cada experiência vivida.

Homeschooling (educação em casa) e Unschooling (desescolarização)

Se trata de duas visões de desescolarização com suas respectivas especificidades. 

Dentro da modalidade do homeschooling se encontram diversas tendências, desde as mais conservadoras que colocam a família como centro absoluto da educação dos filhos, até as mais liberais que colocam a casa como centro. Isso implica muitas diferenças. Na primeira, os pais assumem papel similar ao dos professores; em geral centralizam todo o processo. No entanto, isto não significa que devam ser absolutos ou únicos; se vivem diversos graus de convivência com o contexto. Nas segundas famílias, as que colocam o centro na casa, outras figuras fazem parte da cena, como professores ou pessoas com competências diversas. Em geral o que é importante ter em conta no caso do homeschooling é a urgência de fundamentá-lo em relações sadias. 

Já a desescolarização implica numa forma muito mais flexível. O centro passa a ser a criança e seus interesses e o cenário pode ser qualquer um, desde a casa, a comunidade, a cidade ou o mundo. Os pais são facilitadores e apoiadores do processo, mas nunca o centro. Se desiste totalmente de qualquer idéia de currículo e se defende com urgência um tipo de liberdade que legitima e encaminha a criança para tornar-se o mais autônoma possível no que diz respeito a aprender.

Estas diferenças podem significar posturas ideológicas extremas? Em alguns casos sim. O homeschooling é mais comum entre famílias católicas, cristãs. Ja o unschooling apresenta uma forma mais laica de expressão.

A escolha de educar em casa

Diria que o senso de responsabilidade diante a educação dos filhos é o principal requisito para os pais educarem em casa. Quando esse sentimento aparece e se torna inadiável, quando não dá mais para terceirizar essa responsabilidade, quando a família percebe que todo o esforço que implica a escolarização apenas redunda em cansaço, aí então se inicia o processo. 

A profissionalização do professor não passa de um mito, de um jogo de poder estabelecido e silenciado. Assim, o requisito ao meu ver é o desejo de abrir portas para a aprendizagem do filho. Desejo de libertar. Desejo de legitimar os interesses da criança. O resto se dá por pura gravidade...o dia-a-dia vai revelando aos pais os elementos de que precisam. E se nada disso ocorre numa família específica? Então estaremos diante de uma problemática específica: terão os pais se desescolarizado?

Desescolarizar os pais antes de tudo

Um dos aspectos interessantes da escolha pela educação fora da escola é que, de fato, os primeiros a viverem o processo de desescolarização devem ser os pais. Sem isso tenderão a reconstituir a ordem escolar em casa. Para entender melhor esse momento é importante perceber os sintomas típicos das mudanças de paradigma. É o que entendo por efeito paradigma. A escolarização como paradigma é toda uma forma de viver e entender o mundo e de funcionar nele. Romper com tudo que isso implica não é algo simples. Vai muito além da tomada de decisão. É necessário ir percebendo tudo que implica e conseguir reposicionar interiormente os novos princípios de ação e suas consequências. Especialmente porque o mundo em volta vai continuar o mesmo. Para que os filhos possam viver esse processo, os pais devem ter atravessado o umbral paradigmático, senão não terão força suficiente para continuar adiante pois terão que responder insistentemente sobre o porque dessa decisão. Isso para uma criança é muito difícil se os pais não conseguem dar o suporte simbólico necessário.

Construir identidade

Somos seduzidos pelo entorno. Isto quer dizer que em princípio o que vier dele é assimilado pela criança como algo bom, mesmo que possa ser ruim em verdade. O primeiro desses entornos é a família. O segundo é o mundo. As famílias geralmente apresentam o mundo como algo perigoso. O fazem para proteger a criança. Então aparece o tema da disciplina, dos limites. Se diz que o pai e/ou a mãe devem impor limites, e as crianças e o mundo se dedicam a quebrar esses limites. Aí vem o desespero, os castigos, a imposição do medo, as negações sem fim.

Tento ver tudo isso de outro ponto de vista. O mundo mais que perigoso é um desafio. Para a criança e para os pais. O desafio consiste em sua capacidade de sedução. Tudo o que há no mundo seduz a criança. E esta que vem só do seio da família tudo o que consegue fazer é identificar-se com o que o mundo lhe apresenta. Se identifica apenas porque foi isso que aprendeu na família. 

Assim, a questao é a seguinte...como fazer para que a crianca consiga fazer a distinção entre o que ela é e o que o mundo é? Acho que esse é o verdadeiro papel do pai. Conseguir que a criança se defina frente ao mundo como algo único e irrepetível, como o que ela é na sua singularidade. Mas isto não é possível apenas proibindo a criança de ir, de fazer, de estar no mundo. Ela precisa ir! A questão é ter uma estratégia clara para conseguir que volte... para ela mesma, não para dentro de casa! Se pai e filho conseguem isto, teremos aí um novo adulto, são, tranquilo, experiente e singular, capaz de transitar pelo mundo sem confundir-se com ele. Assim o tema dos limites realmente desaparece. O que fica é o tema da distinção. Cada um terá que encontrar uma estratégia para que a criança saiba distinguir entre ela e o mundo. Fica claro que não se trata de impôr, mas de dialogar, de mostrar, de participar, de ir e de voltar.

(...) O que Ana (Thomaz), por exemplo, nos apresenta se dirige a consolidar um circuito virtuoso que começa na relação mãe-pai-filhos, na medida em que os adultos trabalham internamente para evitar as projeções negativas sobre as crianças. Logrado isto, o que emerge é um espaço de legitimidade de cada um dos membros da relação. Cada um tem direito a viver seus processos internos sem precisar submeter sua vontade à vontade do outro. Assim, se libera a potencia natural de cada indivíduo para desenvolver-se plenamente. A criança que nao tem que carregar em seu íntimo o peso de um adulto está livre para escolher o que quer e sabe que o que quer que escolha será legítimo. Pronto, se estabeleceu um circuito virtuoso nas relações onde o principal é propiciar o florescer de cada ser na sua legitimidade!!

Desenhar o processo

O desenho do que se quer fazer, do que de pode fazer ou do que se deve fazer fica mais claro se os pais estão cientes dessa mudança. No nosso caso, chegamos a um esquema que quebra definitivamente com a idéia de currículo. Preferimos criar um mapa a partir de uma visão transdisciplinar do conhecimento e desde então preferimos estar atentos às demandas de aprendizagem e aos sintomas dessa aprendizagem. Um registro desta construção que nos propomos apresentamos aqui:

http://desescolariza.blogspot.com/2011/12/um-gps-para-rafael.html

Mas, vale lembrar que, cada família cria sua rota metodológica. O importante é manter a criatividade e permitir que as sincronicidades aconteçam, pois não estamos sozinhos nessa aventura!

(...) Sem dúvida, uma vez que a família vai descobrindo o universo de possibilidades que o paradigma da desescolarização oferece, ela pode navegar sem fazer uso de recursos tão pre-desenhados. O que venho observando em diversas famílias de distintos países é justamente esse processo. No começo todos estão impregnados do paradigma escolar, buscando alternativas parecidas. Depois, pouco a pouco, se soltam, vão permitindo seus próprios vôos e descobrem que é possível pilotar a nave sem tanto recurso de um método e menos ainda de um método escolarizado. Pouco a pouco o impulso de reconstruir a escola em casa desaparece e emerge um espaço para a criatividade de todos os atores da família sem que nenhum deles se limite a um papel específico.

(...) Ao comparar muitos blogs (de pais em desescolarização), o que sai é isso: há um primeiro momento em que tomar a decisão pode ser algo muito confuso. É o momento da ruptura com o paradigma escolar. Vem uma espécie de naufrágio coletivo. Abandonar os princípios axiomáticos do velho programa, buscar os novos princípios, inventar a caminhada. E depois um momento de consolidação no qual o grupo familiar se encontra, começa a ver as coisas que emergem no novo contexto e então descobrem coisas no que diz respeito a aprendizagem. É um momento de alegria e de certa sensação de poder. 

Um outro momento é o da conexão, do descobrir que não se está só, ver que há redes em tantos lugares e aí se inicia uma navegação ampla. É quando o projeto pode deixar de ser familiar e alcaçar o nível social, histórico. Nem todas as famílias chegam nesse momento, mas cada vez mais se registram discussões e encontros, grupos de apoio e até empresas nesse patamar.

(...) Como manter o sentido de tudo isso? O estado interior e exterior das crianças! Se elas estão bem, tranquilas e engajadas, então as coisas estão indo por um bom caminho. Para mim, esses são os sintomas fundamentais do estar aprendendo: uma criança que está aprendendo está feliz, quer mais, pede mais, pergunta mais, ela vai desdobrando o sentido das coisas. Faz tudo porque quer. E sempre quer! Nada de obrigatoriedades, nada de compulsoriedades. A disciplina vem de dentro dessa criança e de dentro de nós.

Recursos Educacionais Abertos

O modo como produzimos, distribuímos e concentramos informação mudou com a chegada das novas tecnologias de comunicação (telefonia celular, internet, tablets) e seus correlatos, as redes sociais. A informação circula a um ritmo acelerado e permeia as relações sociais nos mais diversos lugares e localidades do planeta. Os centros concentradores de informação perdem assim seu domínio sobre a informação. O controle se distribui, de dilui, se desconcentra. Se compartilham dados de todos os tipos de conhecimento. As comunidades produtoras de informação e conhecimento se conectam e são interferidas impertinentemente por usuários, por leigos, por interessados. As antigas fronteiras institucionais se derretem e são transcendidas pelos fluxos, pelos diálogos, pelas consultas que emergem desde os mais inusitados pontos. Nesse panorama, a família leiga e desinformada desaparece e emerge a família conectada, a família que hackea, a família que atua nas redes e que confere informações. Tambem emerge a família que produz conteúdos. Tudo isso potencializa sim um cenário diferente. Um cenário que supera as instituições que ainda se supõem detentoras de poder simbólico insubstituível.

(...) Esse me parece o elemento mais forte no fenômeno atual. Se estabelece uma dicotomia muito clara entre as instituições concentradoras de conhecimento - escolas, universidades - e o fluxo aberto de informações que estabelecem as novas tecnologias. Assim como a internet está reconfigurando todo o mercado de produção de música, conteúdo, literatura ou como os softwares livres estão mudando a forma de usa o da rede, também  se estão derretendo as bases sobre as quais essas instituições fundamentavam seu poder. As novas tecnologias permitem que, mesmo crianças de 10 anos, com algumas habilidades básicas tenham acesso a um amplo aspecto de conhecimentos. Esta mudança radical na infra-estrutura da comunicação está revolucionando toda a super estrutura política sobre a qual se regulava o acesso ao conhecimento.

(...) Mesmo assim, ainda que a internet seja um apoio fantástico, a verdade é que não é indispensável a esse processo. Conheci a história de uma mãe analfabeta que tudo o que fez foi oferecer livros aos seus filhos. Eles aprenderam a ler efetivamente e durante toda a infância e adolescência leram. Hoje são médicos respeitados. Outra história é a de um pai que tudo o que fez foi ver filmes com seus filhos. Todos os dias um filme de qualidade. As crianças adquiriram uma formação maravilhosa! Por exemplo, as histórias de auto aprendizagem que nos mostram alguns experts da Índia contemporânea  são simplesmente fabulosas.

Estamos assim em um mundo que está descobrindo que não existe limite nem formato para a aprendizagem, que tudo o que necessitamos é permitir que ela ocorra sem necessidade de estabelecer regras ou controle. E o que é mais louco ainda: as crianças nos demonstram que se legitimamos seu processo de aprendizagem, em pouco tempo nos estarão ensinando coisas que nunca sonhamos!

Aprender em comunidade

Uma criança está sempre aprendendo, em qualquer ambiente que se encontre estará aprendendo, captando, internalizando. O ambiente, seja este a casa, a comunidade, o bairro é sempre um livro aberto. Mesmo que não se disponha conscientemente uma organização para isto, a troca de informação estará ocorrendo. Portanto, a questao é tornar esse ambiente mais consciente dessa função de maneira a propiciar elementos interessantes, abundantes, criativos, enriquecedores. A criança estará sempre disposta e aberta a receber. Se o ambiente material e humano é propositivo, aberto e disposto, será natural que a criança faça escolhas de acordo com seus interesses.

Assim, estar atento é fundamental para um pai, mãe homeschooler. Estar atento a tudo no ambiente e assim aproximar a criança de ambientes nutritivos. Ou facilitar-lhe o discernimento frente a ambientes tóxicos. Um exemplo: meus filhos gostaram desde muito cedo de andar de skate. Um primo lhes apresentou essa prática. Uma hora eles quiseram conhecer uma pista de skate. Os levei, mas me deparei com toda uma serie de elementos que requeriam de cuidado naquele ambiente. Uso de drogas, álcool, uso de um linguajar preenchido de gírias e vulgaridades, um modo de vestir específico. Um ambiente tóxico para uma criança. Mas, longe de retirá-los dali, fui com eles, estive presente, inclusive aprendi a andar de skate, de maneira a manter o diálogo com os meninos. Na medida em que eles foram absorvendo elementos que considerei tóxicos os ajudei cuidadosamente a estabelecer distinções. Hoje, eles são excelentes desportistas, participam de competições nessas modalidades, fazem amigos em diversas cidades e partes do mundo através das comunidades que discutem e praticam as diversas modalidades. E tambem sabem distinguir o que é tóxico para eles. Tudo isso sem alimentar preconceitos, nem estabelecer conflito.

O salto que temos que dar é o da intenção. As pessoas ensinam e mostram, queiram ou não. Temos que ir gerando comunidades de pessoas que queiram mostrar e construir ambientes simbolicamente enriquecedores, engajados. Um exemplo disso, vejo na comunidade de Homeschooling Colombia no Facebook. Pouco a pouco vao gerando encontros, trocas, discussões, compartilhamentos. Trata-se de uma longa construção, não de uma utopia.

(...) Somos por natureza seres de cooperação, seres de coletividade, seres que necessitamos estar juntos, em comunidade. Essa é a nossa natureza. Portanto isso não tem que ser ensinado, apenas é necessário deixar que aconteça. Quando isso não está acontecendo é porque houve uma ruptura do nosso ser natural. Houve a imposição de uma outra forma de ser, houve uma manipulação imposta que leva uma criança ou um grupo de crianças a comportar-se de maneira individualista. Então tem que acontecer um processo de cura. Cura entendida como uma recuperação do nosso ser natural que é essencialmente cooperativo, comunitário, colaborativo. Há de se identificar qual foi a causa dessa ruptura: saber se se trata de um processo de instauração de modos excessivamente competitivos, hierarquicos, autoritários, conflitivos no seio da família e da sociedade em que se vive. Será necessário reestabelecer nexos de confiança, de amorosidade, de permissão, de compartilhamento, de autonomia e de respeito. Restaurar a legitimidade de cada um no seio do grupo. Para tanto o primeiro seria o adulto reconhecer esse processo, pois sempre sao os adultos os que tem poder para instaurar esse tipo de dispositivo nas relacões, reconhecer que devem mudar. Daí que a desescolarização deva começar com os adultos. O adulto deve desarmar-se, entregar sua autoridade e dispôr-se a perceber o outro  ̈como legítimo outro ̈ (Maturana). Conseguido isso, o processo flui naturalmente!

O papel do Estado

Essa questão é muito importante. Penso que nao se deve caminhar no sentido da desaparição do papel do Estado. A Educação como direito humano deve contar com o apoio irrestrito do Estado, se não vira uma mercadoria nas maos da economia. Porém, o Estado deve permitir-se pensar a educação desde diversos paradigmas e não apenas desde a visão única da escolarização. Abrir espacos, estimular projetos e gerar possibilidades de educação desescolarizada é interessante num contexto no qual fica cada vez mais evidente que o modelo escolar é incapaz de dar conta dos desafios que este momento da história nos coloca. E nesse contexto desescolarizar resulta uma alternativa interessante. Pensar uma sociedade desescolarizada e não apenas famílias desescolarizadas é um grande desafio para a imaginação. Temos sim que realizar esse exercício. Ilich e outros já o fizeram, mas o contexto mudou tanto com as novas tecnologias que temos que pensar tudo de novo. 

Temos que começar a imaginar, nesse sentido, na prática, o que seria uma cidade para aprender. Além de tudo que uma cidade por si já oferece, o que falta é a intencionalidade de todos os habitantes e as instituições. Hoje todos pensam assim: as crianças tem o lugar delas nas escolas, é la que devem aprender. Essa é a atitude concentradora. O novo pensamento deve colocar-se assim: temos crianças por todo lado, o que vão aprender quando passem ou entrem ou cheguem aqui onde eu estou, onde eu trabalho, na minha casa, na minha quadra, na minha instituição? O que posso oferecer hoje para uma criança de maneira a que ele entenda o que eu faço? Que lugar posso recomendar pra que ela visite? Que pessoa posso indicar para que essa criança conheça? Esse tema deve deixar em estado de alerta os formuladores de políticas públicas. Estes devem começar a enxergar as cidades como espaços de aprender, assim todos os dispositivos públicos devem ser auto explicativos, deve haver equipes de informadores ou de professores narrando a cidade, contando a história de cada lugar, analisando com as crianças as diversas perspectivas de cada lugar: arquitetura, engenharia, história, estética, sociologia, antropologia, religião, política, matemática, etc.